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Tokyo, 1983.

Este foi o ano em que viajei para o Japão pela primeira vez. Tenho trabalhado com papel por vários anos e neste tempo estava montando minha própria fábrica de papel, a primeira no Brasil dedicada exclusivamente para as belas artes.

Fiquei em Tóquio por um mês num pequeno hotel. Uma noite, enquanto assistia TV fui subitamente atingido por uma desafiadora idéia: “Seria possível fazer uma folha de papel artesanal usando o método tradicional Europeu, dentro de um pequeno quarto?” Mais que um desafio técnico eu sentia a possibilidade de ganhar uma longa liberdade desejada: ser capaz de fazer papel além dos limites da fábrica.

Entusiasmado, levantei da cama e peguei uma camiseta em cima da cadeira. Rasguei um pedaço da manga e notei que ela era o material bruto ideal para fazer papel: trapo de algodão. Coloquei aquele pedaço de trapo em minha boca e comecei a mascá-lo. Para obter uma polpa de papel é necessário usar uma máquina que retalhe e bata o trapo. De alguma maneira e com um pouco mais de paciência a mandíbula humana pode fazer o mesmo trabalho; E claro dói um pouco mais mas é perfeitamente possível!

Aquele “trapo mastigado” foi transferido para uma tigela de porcelana em cima da mesa e água mineral foi adicionada a ele. Lá estava: um recipiente cheio de polpa de trapo de algodão pronta para o trabalho. Para formar a folha era necessário usar algum tipo de molde. Então peguei um palito de fósforo e afundei-o na tigela. As fibras agarraram-se em cima dele enquanto eu o erguia para fora da água. Usei meus dedos para tirar algum excesso de água e então a folha de papel tomou forma. Para secar o papel eu pude soprá-lo por algumas horas mas como minhas mandíbulas já estavam doendo por mastigar eu desisti e fui dormir. Deixei o papel para secar na janela durante a noite.

Na manhã seguinte, enquanto eu felizmente observava que aquela pequenina folha de papel feito a mão eu concluí: sim, era certamente possível manufaturar papel dentro de um quarto de hotel Japonês desde que cuidadosamente observado todos os passos do método tradicional Europeu. Não somente isto, eu senti como se fosse uma fábrica de papel móvel. Eu tinha um moedor em minha boca, uma prensa em minha mão e até um secador em meus pulmões.

Esta estranha experiência foi um ponto de mudança em meu trabalho. Quando do meu retorno ao Brasil aquele elemento de papel foi multiplicado por milhares usando é claro um equipamento apropriado. Desde então estes pequenos elementos de papel tem sido parte do meu trabalho.

Pretendo recriar este episódio durante a II Bienal Internacional do Papel em Duren entre 12 e 19 de junho de 1988. Exatamente 5120 elementos de papel serão feitos no Museu Leopold Hoesch sob a observação do público Germânico. Estes elementos serão coloridos e arranjados sobre um octógono flutuante de vidro transparente. O trabalho intitulado “População” é o resultado desta performance.

Carta de Otávio Roth, traduzida por Cássia Caliari em maio de 2001 para a Usina do Papel, em Porto Alegre.

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