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A HISTÓRIA DO PAPEL
Celina Cabrales

1. Proto-papéis
Antes da invenção do papel outros vegetais foram usados como suporte de escrita. Folhas de palmeira e tiras de bambu eram usados no Oriente. Os polinésios e havaianos, assim como os chineses, desde a pré-história usavam uma entrecasca de árvore que ficou conhecida como tapa.

O tapa é muito parecido com o tururi que os índios Ticuna preparam no Brasil usando a entrecasca de árvores do tipo ficus. Cortando o tronco da árvore e golpeando com macetes de madeira a entrecasca se separa. Ela é lavada e cortada. Com ela os ticunas preparam roupas rituais e também muitos artefatos utilitários. Hoje fazem também produção para turistas.

Também de entrecasca era feito pelos maias um material com o qual eles escreviam e construíam códices. Hoje este conhecimento sobrevive através dos índios Otomi, no México. Este material se chama amatl. O amate é este material com as pinturas típicas mexicanas.

O mais famoso e importante dos suportes vegetais antes do papel é o papiro, e de seu nome deriva a palavra papel. Foi inventado pelos egípcios e os exemplares mais antigos têm 3.500 anos. Usavam lâminas do junco que crescia nas margens do rio Nilo, o Cyperus Papyrus. Hoje o rio já não produz estes belos exemplares de mais de 5 metros. As lâminas eram justapostas no sentido vertical e horizontal. Depois de golpeadas e prensadas eram polidas. O papiro serviu de suporte de escrita para os textos gregos e latinos até o início da nossa era, quando foi substituído pelo pergaminho.

O pergaminho é um suporte de escrita feito do couro de animais - ovelhas, carneiros, cabras, vacas e outros. Diz-se que foi desenvolvido na cidade de Pérgamo, levando-lhe o nome, duzentos anos antes de Cristo, mas em forma mais rudimentar já existia mil anos antes. Quando é utilizado o couro de fetos de animais dá-se o nome de velino, com consistência mais suave e flexível. Para editar uma bíblia matava-se 300 carneiros. Toda a cultura medieval foi escrita sobre pergaminho.

2. Papel oriental
O papel foi inventado na China e a amostra mais antiga data de 200 anos antes do nascimento de Cristo, encontrada em um túmulo na província de Shansi. Entretanto foi Ts’ai Lun que o introduziu na corte imperial em 105 d.C., e por isso é reverenciado até hoje como seu inventor. Os chineses usavam lâminas de bambu e folhas de palmeira, seda e também uma espécie de papel feito com restos de casulos como suporte de escrita. Conheciam o tapa e o feltro. Suas experiências com restos de redes, cânhamo, amoreira, bambu e outras fibras, resultou no material que chamamos papel.

Da China o papel foi para a Coréia e, através de monges budistas, foi difundido no Japão nos anos 600 de nossa era.

O método japonês de fabricação utiliza três plantas tradicionais: o gampi, o kozo e o mitsumata. As fibras são cozidas, limpas, masceradas com martelos de madeira ou varas e diluídas em um tanque no qual se acrescenta uma mucilagem extraída do hibisco, o neri. Os moldes são flexíveis e feitos com finíssimas varetas de bambu e fios de seda. As folhas são formadas em múltiplas camadas sobrepostas e postas a secar sobre tábuas quentes ou ao sol. Este tipo de papel é chamado de washi. Das 60.000 vilas papeleiras do início do século no Japão, hoje sobrevivem não mais que 700. A vila de Kurotani, ao norte de Kioto, mantém a tradição.

No método nepalês as folhas são feitas por derramamento em forma. Utilizam a fibra de uma planta chamada dafne que cresce a 4000 metros, no Himalaia. A folha também pode ser retirada de tanques cavados no chão com esteiras de bambu ao modo japonês. Posta sobre um saco de algodão no chão ou na própria forma. é levada ao sol para secar, Depois é calandrado com uma bola de vidro. O tingimento é feito com corantes vegetais.

O resultado também é uma folha muito fina e sedosa, característica comum ao papel oriental, pois o papel visava imitar a seda e era escrito com pincel. O trabalho artesanal de papel no Nepal recebe ajuda da UNICEF.

3. Papel ocidental
A difusão do papel para o ocidente se deu através dos árabes. Interessados neste material barato para poder divulgar os ensinamentos de Maomé, foram responsáveis pela construção de importantes bibliotecas. Graças a eles, muito dos textos produzidos por gregos e romanos foram preservados e reintegrados à cultura ocidental depois da Idade Média. Os árabes também inovaram na produção de papel, dando-lhe a aparência e resistência similar a do pergaminho. Usavam restos de trapos e de fibras de linho principalmente, método que foi adotado pela Europa sob seu domínio nos anos 1100, iniciando em Xátiva, na Espanha.


A rota do papel

Os moinhos de trigo abandonados foram transformados em fábricas de papel. Os trapos coletados pelas trapeiras nas cidades eram transportados para os moinhos que ficavam ao longo dos rios. Lá eram separados, postos para apodrecer e triturados pelos macetes de madeira, movidos pela força transmitida pelas rodas d’água. A polpa de trapos era coada em moldes rígidos com malha de fios de cobre, invenção ocidental. Prensados e encolados com cartilagem animal eram postos para secar, polidos e empacotados.

Os papeleiros italianos na Idade Média desenvolveram um sistema de intervenção na folha de papel chamado de marca d’água que permitia identificar o fabricante da folha depois de pronta.

As inovações de Gutenberg no campo da impressão em 1455 foram uma revolução enorme. Nos 50 anos seguintes 35.000 títulos foram impressos. Após a impressão da bíblia em papel, não houve mais fronteiras para o uso deste material que passou a substituir em tudo o pergaminho. A demanda aumentou intensamente.

Entre os anos de 1750 a 1850 muitas pesquisas e invenções foram feitas no sentido de buscar novas tecnologias e matérias-primas. A invenção de uma máquina de refino de pasta celulósica em l680 anuncia novos tempos. Chamada de holandesa em função do seu país de origem, essa máquina substituiu com maior produtividade os moinhos tradicionais, simplificando etapas do processo de produção.

No fim do século XVIII, (1798) Nicholas-Louis Robert, um operário francês, inventará a máquina contínua. Em 1806 os irmãos Henry e Sealy Fourdrinier compram esta invenção, a patenteiam e a aperfeiçoam . Apesar de terem perdido uma fortuna, seus nomes ficaram eternizados na indústria do papel que ainda hoje chama assim a máquina que faz papel.

Esta invenção constituiu um notável avanço na fabricação de papel, determinando um incremento considerável de produção e exigindo, para tanto, maior quantidade de matéria-prima. A insuficiência de trapos para fazer frente a esse novo ritmo de consumo desencadeia uma intensa busca de novas fontes fibrosas.

Em 1800 começa a ser utilizado em moinhos ingleses a recente invenção de Joseph Bramah, a prensa hidráulica (1790).

Também neste ano, Matthias Koops, morando em Londres, começou seus experimentos no uso de madeira para fazer papel. A maior parte do que conhecemos como indústria de papel nos nossos dias começou a partir do trabalho pioneiro de Koops. Um exemplo é a máquina de moer madeira patenteada por Friedrich Gottlob Keller, em 1840, na Alemanha.

4. Papel industrial no Brasil
Muitos países reclamam a primazia da produção de papel. O fidalgo português Moreira de Sá em 1802 fundou uma fábrica com notáveis aperfeiçoamentos industriais e com um laboratório onde se devia trabalhar já dentro de um plano de investigação científica. É tida como a 1ª fábrica de papel em pasta de madeira. A invasão francesa arrasou com a fábrica em 1808.

A corte portuguesa transfere-se para o Brasil e com ela em 1809 é construída no Brasil nossa primeira fábrica. Henrique Nunes Cardoso e Joaquim da Silva, industriais portugueses transferidos para o Brasil a instalam em Andaraí Pequeno, no Rio de Janeiro. Pretendiam trabalhar com fibras vegetais. Supõe-se que deva ter começado a funcionar entre 1810 e 1811.

Tem-se notícia de uma outra fábrica no Rio de Janeiro também, em torno dos anos 1820 e 1821. Ainda no Rio temos a fábrica de André Gaillard em 1837 e a de Zeferino Ferraz, na Freguesia do Engenho Velho, em 1841. Neste mesmo ano temos a fábrica de Conceição da Bahia utilizando fibras vegetais.

Instalada no meio da serra de Petrópolis - RJ por Guilherme Schuch, o Barão de Capanema, em 1852, a fábrica de Orianda atingiu excepcional índice de perfeição técnica. Jornais como o Diário do Rio de Janeiro, Correio da Tarde e Correio Mercantil nela se abasteciam, assim como o Tesouro Nacional, que utilizou papel selado de sua fabricação. Passando por inúmeras dificuldades em mais de uma ocasião foi socorrida por D. Pedro II. Faltava a matéria-prima, o trapo, o que obrigava à importação da Europa, pois não havia entre nós, como ele reclamava, a indústria organizada de trapeiros. Outro golpe sofrido pela fábrica foi a peste bubônica em 1855, que atingiu todo seu operariado. Apesar das vicissitudes continuou a produzir papel até 1874, quando foi decretada sua falência.

Dez anos mais tarde, duas novas fábricas são abertas em Petrópolis e uma outra no Rio de Janeiro.

Em 1889 temos São Paulo no cenário papeleiro com a fundação da fábrica de papel Paulista, em Salto do Itú. Esta é a primeira fábrica bem sucedida de papel no Brasil e existe até hoje. Também deste período, 1890, a Indústria de Papel da Companhia Melhoramentos de São Paulo, cidade de Caieiras, abre as portas de um novo século.

5. Papel artesanal no Brasil
O papel artesanal no Brasil, exceção feita aos trabalhos de Frei Veloso no começo do século passado, inicia em Minas Gerais, São Paulo e Brasília quase simultaneamente. Em Brasília, com as pesquisas de Zuleica Medeiros em materiais artísticos alternativos, gerando o LEME. Em São Paulo, ainda em 79, Otávio Roth com a Handmade paper. Em Minas, com a iniciativa de Marlene Trindade, professora na Escola de Belas Artes de UFMG, em um desdobramento do curso de Artes da Fibra, em 1980. Nicia Mafra e Diva Buss fazem parte deste primeiro grupo de alunas, sendo que esta última realiza na Galeria Otto Cirne no ano seguinte, a primeira exposição individual de papel artesanal no Brasil.

Seguem-se cursos no Festival de Inverno da UFMG em Diamantina, que farão, juntamente com os cursos que Diva realiza pelo Brasil afora, a difusão do papel artesanal como expressão artística. Vera Queirós e Joice Saturnino em Minas, Maria Leda Macedo e Bárbara Benz em Porto Alegre, também seguem esta vertente.

De São Paulo, Otávio Roth é o nome mais expressivo, tendo contribuído com a publicação de livros sobre o assunto assim como com a criação da Oficina das Artes do Livro e vários projetos de âmbito internacional que prosseguiram ainda após seu falecimento em 1993. Além de sua obra pessoal como papeleiro e gravurista, deu cursos pelo Brasil, inclusive aqui no Rio Grande do Sul.

Neste estado, o trabalho de Maria Leda frutificou na oficina de papel da Vila Cristo Rei, em Cachoeira do Sul, em 1988, a qual serviu de referência para a criação da Usina do Papel da Prefeitura de Porto Alegre, em 1992. Esta iniciativa de Celina Cabrales contou com o apoio técnico de Bárbara Benz, que aportou ao projeto também sua trajetória ecológica. O trabalho neste espaço permanente de produção material e conceitual de papel tem sido desenvolvido desde então por Celina Cabrales e Josmeri Pergher Puhl.

A Papeloteca Otávio Roth, criada em 2004, se dedica à pesquisa, acervo e difusão deste patrimônio da humanidade.

Obras de Bárbara Benz (esq.) e de Maria Leda Macedo (acima)

Este texto é de livre reprodução e foi organizado como material didático de apoio a professores e multiplicadores.

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