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O que é papel ?
Celina Cabrales

Para cada um de nós o papel é algo diferente. Serve para escrever, desenhar, pintar, embrulhar... Podemos rasgar, dobrar, colar, ou cortar... Nele depositamos informações preciosas como nossa identidade, sonhos, idéias, memória. São documentos que devem ser preservados e constituem a história escrita. Ele também é dinheiro e vale nosso trabalho. Ele é a natureza transformada em cultura e vai dos hábitos de higiene ao cartão de aniversário. Está no nosso dia-a-dia e por toda a parte. Para algumas pessoas o papel é um caminho. Segui-lo pode significar aprender muitas coisas sobre o mundo e sobre si mesmo. Estas pessoas se dedicam a estudar e a produzir papel com suas próprias mãos.

Otávio Roth escreveu um livro que tem como título esta pergunta. Outras pessoas responderam desta maneira:

"É um conjunto de muitas fibras vegetais entrelaçadas entre si, como se tratasse de um feltro." (Ricardo Crivelli, papeleiro e artista plástico argentino, autor do livro Notas sobre papel hecho a mano.)

"É uma substância feita na forma de uma folha delgada ou lâmina de trapos, cascas, palha, madeira ou outro material fibroso, para vários usos." (Dard Hunter, mestre papeleiro americano, pioneiro nos Estados Unidos e realizador de inúmeros tratados sobre papel feito a mão.)

"O papel é uma folha delgada e contínua, obtida unindo intimamente, comprimindo e secando materiais fibrosos, principalmente de celulose, previamente hidratadas, misturadas ou não com outras substâncias." (Eng. Costa Coll, especialista papeleiro espanhol.)

"Papel não é apenas a superfície mas também a estrutura. Papel verdadeiro é definido por seu processo de manufatura. O processo básico de fibras batidas suspensas em água, vertidas sobre uma superfície porosa, drenada e seca para formar uma folha de papel não mudou desde a primeira folha." (Torben Bo Halbrik, gravurista dinamarquês, que ditou curso de papel na Usina do Papel em 1998.)

"Pasta de matéria fibrosa de origem vegetal, refinada e quando necessário, branqueada, contendo cola, carga e, às vezes, corantes, a qual se reduz manual ou mecanicamente a folhas secas, finas e flexíveis, bobinadas ou resmadas, usadas para escrever, imprimir, desenhar, embrulhar, limpar e construir." (Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira)

"Se você for poeta, verá nitidamente uma nuvem passeando nesta folha de papel. Sem a nuvem, não há chuva. Sem a chuva, as árvores não crescem. Sem as árvores, não se pode produzir este papel. A nuvem é essencial para a existência do papel. Se a nuvem não está aqui, a folha de papel também não está. Portanto, podemos dizer que a nuvem e o papel intersão. Interser é uma palavra que ainda não se encontra no dicionário, mas se combinarmos o radical inter com o verbo ser, teremos um novo verbo: interser. Se examinarmos esta folha com maior profundidade, poderemos ver nela o sol. Sem o sol, não há floresta. Na verdade, sem o sol não há vida. Sabemos, assim, que o sol também está nesta folha de papel. O papel e o sol intersão. E se prosseguirmos em nosso exame, veremos o lenhador que cortou a árvore e a levou à fábrica para ser transformada em papel. E vemos o trigo. Sabemos que o lenhador não pode existir sem seu pão de cada dia. Portanto o trigo que se transforma em pão também está nesta folha de papel. O pai e a mãe do lenhador também estão aqui. Quando olhamos desta forma, vemos que, sem todas estas coisas, esta folha de papel não teria condições de existir. Ao olharmos ainda mais fundo, vemos também a nós mesmos nesta folha de papel. Isso não é difícil porque, quando observamos algum objeto, ele faz parte de nossa percepção. Sua mente está aqui, assim como a minha. É possível, portanto, afirmar que tudo está aqui nesta folha de papel. Não conseguimos indicar uma coisa que não esteja nela- o tempo, o espaço, o sol, a nuvem, o rio, o calor. Tudo coexiste nesta folha de papel. É por isso que para mim a palavra interser deveria ser dicionarizada. Ser é interser. Não podemos simplesmente ser sozinhos e isolados. Temos de interser com tudo o mais. Esta folha de papel é, porque tudo o mais é. Imagine que tentemos devolver um dos elementos à sua origem. Imagine tentarmos devolver a luz do sol ao sol. Você acha que a folha de papel ainda seria possível? Não, sem o sol, nada pode existir. Se devolvermos o lenhador a sua mãe, tampouco teremos a folha de papel. O fato é que esta folha de papel é composta apenas de elementos não papel. Se devolvermos estes elementos a suas origens, não haverá papel algum. Sem estes elementos não papel, como a mente, o lenhador, o sol e assim por diante, não haverá papel. Por mais fina que esta folha seja, tudo o que há no universo está nela.” (Thich Nhât Hanh, monge budista.)

O que é papel para você?

(Este texto é de livre reprodução e foi organizado como material didático de apoio a professores e multiplicadores.)

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