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YES, NÓS TEMOS BANANA

Gladis Uzun Fleischmann

“Yes, nós temos bananas
Bananas pra dar e vender
Banana menina
Tem vitamina
Banana engorda e faz crescer
Vai para a França o café, pois é
Para o Japão o algodão, pois não
Pro mundo inteiro
Homem ou mulher
Bananas para quem quiser”
(Alberto Ribeiro e João de Barro 1938)

Introdução

A pesquisa da fibra da bananeira para produzir papel artesanal em andamento na Papeloteca Otávio Roth ainda está em processo. Decidimos iniciá-la porque já tínhamos trabalhado com ela fazendo experimentos e visto possibilidades de aprofundar o estudo. Em dezembro de 2004, após visita à Lwarcel, em Lençóis Paulistas, ficamos estimulados a organizar um projeto de estudos.

Também temos visto a disponibilidade dos resíduos depois das podas do seu tronco, nem sempre aproveitados, no entorno da cidade de Porto Alegre. É muito fácil recolher os troncos jogados para recolhimento, no lixo colocado pela vizinhança.

Vimos a possibilidade de estudar com rigor, a confecção do papel, a obtenção da matéria prima, o processo da realização da folha, todos os aproveitamentos possíveis dos resíduos da bananeira, e dos materiais que utilizamos, especialmente o uso da água neste processo.

O estudo para o aproveitamento desta fibra para o papel de restauro, é outra possibilidade desta pesquisa. É claro que a beleza e a resistência destas fibras reforçou nosso desejo.

Nosso trabalho não pretende trazer um pensamento único. Ao contrário, estamos abertos a novos conhecimentos, a todo momento, de quem possa contribuir para ampliar o leque de possibilidades da pesquisa.

A partir daí, todo nosso olhar por onde andamos esteve atento para a coleta de dados sobre o assunto, registro escrito do que vimos e ouvimos, fotografias, filme...

Este texto é um esforço de sistematização do que junto com Celina Cabrales e Valmor Fleischmann estamos pesquisando e vivenciando. A pesquisa teve o apoio de Atíllio Seber ( Lwarcel), de Cássia Caliari (UFRR) e dos demais pesquisadores da Papeloteca Otávio Roth.

Bananeira: origem, dispersão

Não se pode indicar com exatidão a sua origem, pois ela se perde na mitologia grega e indiana. Alguns teóricos apontam que a banana é originária do sul da Ásia, Índia e Indonésia. Dizem ser a mais antiga fruta de que se tem notícia, e é citada em textos budistas de até 500 AC. Sua dispersão aconteceu com as navegações portuguesas, supõe-se que através de suas viagens, os grandes navegadores conheceram esta fruta e começaram a cultivá-la por onde passavam.

No Brasil temos muita banana e podemos reconhecer em registros antigos sua importância na nossa alimentação. As bananeiras no Brasil existem antes do descobrimento. Quando Cabral chegou aqui, encontrou os indígenas comendo in natura um cultivar que se supõe tratar-se da banana “branca” e outro que precisava cozinhar antes do consumo chamado de “pacoba” que deve ser o cultivar pacova.

Na IIª Guerra Mundial, sabe-se que os Estados Unidos subvencionou o plantio na América Central.

A banana (Musa spp.) é uma fruta de consumo universal, sendo apreciada in natura, frita, assada, cozida, em calda, em doces caseiros ou em produtos industrializados. A produção mundial da banana é de aproximadamente 64,6 milhões de t/ano. No Brasil produzimos atualmente 6,3 milhões t/ano. Os principais estados produtores no Brasil são Pará, São Paulo, Bahia, Amazonas, Minas Gerais e Santa Catarina. Há também o cultivo no Rio Grande do Sul com menor produção nos municípios de Três Cachoeiras, Torres, Maquiné e Santo Antônio da Patrulha. Desta produção, 90% destinam-se para o consumo interno.

Classificação, cultivo, aproveitamento

A palavra tem origem africana e é conhecida também como banano, plátano, gruneo e cambure. Atualmente, a classificação das bananeiras produtoras de frutos comestíveis é a seguinte:
Ordem Scitaminales,
Família Musaceae
subfamílias Heliconioidease,
Strelitzioidease
Musoidaea.
Gênero Ensete
Gênero Musa
Subgênero Australimusa
única espécie: Musa Textilis conhecida como abacá
subgênero Callimusa não produz frutos comestíveis
subgênero Rhodochlamys não produz frutos comestíveis
subgênero Eumusa ou simplesmente Musa: aqui estão localizadas as espécies de interesse comercial.

A bananeira é um vegetal herbácio completo, típico das regiões tropicais úmidas, que possui raiz, caule subterrâneo ou rizoma (pseudocaule), folhas, flores, frutos e sementes.

O pseudocaule é formado por bainhas foliares sobrepostas, tendo em seu interior o palmito. No prolongamento das bainhas foliares encontram-se as folhas. O cacho é composto pelo engaço, ráquis, pencas de bananas e botão floral ou coração. No caule ocorre a formação das raízes, das folhas, da inflorescência e a geração de novos rebentos ou filhotes.

A bananeira produz resíduos após a colheita da fruta.. Ela dá um cacho só e deve após ser podada mais ou menos a um metro do tronco, em diagonal, para armazenar a seiva para o filhote ou nova muda.

Há referência que depois do descarte do pseudocaule, em grande quantidade, se não houver um bom manejo destes resíduos, poderá haver aumento de umidade no local e proliferação de fungos.

Se colocado na compostagem poderá ser observado o difícil apodrecimento de suas fibras, por serem resistentes. O engaço é retirado em ambiente de climatização para posterior comercialização da banana. É o processo de separação das pencas, sendo também colocado no lixo. Um bananal cultivado de maneira convencional fornece 200 t/ha/ano de resíduos.

Todo este material tem grande potencial fibroso, tanto no pseudocaule quanto na folha e engaço. O comprimento da fibra varia de 2 mm a 8 mm. Além das fibras, a bananeira tem sido usada para comida e ornamentação. A banana tem importante valor alimentar. É consumida in natura, ou em pratos doces e salgados. Circe Saldanha, artista plástica de Porto Alegre, realizou importantes trabalhos de gravura a partir da observação de bananeiras no fundo do seu quintal.

A pesquisa de campo

Estamos fazendo vários movimentos de observação, coleta de dados e registros, que iniciaram em 2004.

No final desse ano, foi feita uma visita à Lwarcel em Lençóis Paulistas, uma empresa que produz celulose da fibra de abacá, usada para a produção de saquinhos de chá e capa de embutidos alimentares. De lá foi trazida celulose para produção de folhas e informações importantes da área industrial, assim como sobre o cultivo desta espécie que não se adapta ao Brasil e é extensamente cultivada no Equador.

Depois pudemos observar em Manaus, no Mercado local, o desembarque de uma grande quantidade e variedade de bananas (prata, nanica, pacovã, maçã). Conversando com os responsáveis, fomos informados de que os resíduos eram colocados de forma inadequada no lixo e que não havia preocupação e nem projeto para tal. De lá foi trazida uma pequena quantidade de engaço das bananas e produzidos os primeiros papéis usando o engaço, que resultaram bonitos e resistentes.

Em março de 2005, visitamos o sítio dos Melo em Evaristo, distrito de Santo Antônio da Patrulha, onde se encontra parte da Mata Atlântica, e adentramos um bananal, coletando informações para a pesquisa. Retornamos lá em abril, para a 16ª Festa Municipal da Banana, uma festa desta comunidade. Havia estande de produtos, com exposição de variedades de bananas produzidas no local e a EMATER encontrava-se presente divulgando os seus projetos realizados lá: são pesquisas com novos e mais resistentes cultivares, consorciação de outras espécies junto com a bananeira, o trabalho de educação ambiental junto às escolas e Clubes de Mães, orientação às climatizadoras de banana na classificação e orientação com acompanhamento para 20 famílias de pequenas propriedades de 20 ha no plantio de bananeiras e outras cultura em um projeto agroecológico.

Outro movimento da pesquisa foi em março, em Londrina PR, quando fomos convidados por D. Maria José, presidente da Associação de Mulheres do Patrimônio Selva, para ministrar um curso de papel artesanal de fibra de bananeira nesta comunidade que já produzia artesanato com a fibra. Inúmeros aspectos da lida com as fibras da bananeira foram aprendidos com aquela artesã e líder comunitária.

Em maio de 2005 ministramos um curso a convite do SEBRAE na comunidade de Caroebe, em Roraima, cidade que produz 70% da banana consumida no mercado de Manaus e onde está sendo desenvolvida a APL Bananicultura. O trabalho pioneiro de Cássia Caliari na difusão do papel artesanal em Roraima já estava dando seus frutos. De lá trouxemos conhecimentos advindos do convívio profundo de uma comunidade com esta planta.

Nesta ocasião, com o apoio de Rogério Fleischmann, foi produzido o vídeo Yes, nós temos banana, com imagens dos locais visitados.

Em maio e junho a pesquisa foi apresentada em exposição e palestra-laboratório no evento Papel-Brasil feito à mão na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (ver mais...) e em setembro na Feira de Atividades Educativas do Dia Interamericano de Limpeza e Cidadania DiadeSol.

Faça uma experiência de fazer papel da fibra de bananeira, seguindo esse passo a passo

- cortar o pseudocaule (poda após a banana dar o cacho)
- picar em pedaços de 4 cm
- cozinhar num balde galvanizado ou latão com 2 colheres de soda em flocos dissolvida em água
- deixar esfriar e lavar bem (cuidar o uso de luvas no manuseio desta fibra ainda com soda)
- medir o PH da água e corrigir se necessário para que chegue a 7 (neutro)
- bater aos poucos no liquidificador com água, formando a polpa
- colocar água na bacia e baba de quiabo
- tirar a folha no molde, como se fosse reciclagem
- prensar a folha molhada
- secar no varal
- prensar a folha seca, se necessário

Porto Alegre, sexta-feira, 30 de setembro de 2005.

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